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Há alturas do ano em que deixamos de caminhar pelos dias e passamos a ser empurrados por eles. O calendário fecha-nos num abraço apertado e, entre o ritmo acelerado do Natal e as doze passas da meia-noite, ficamos reféns de um tempo que não escuta, não espera e raramente pergunta como estamos. Vivemos a cumprir, a chegar, a preparar, a antecipar — mas quase nunca a sentir.
É nestes dias que sinto falta de algo simples e profundamente humano: balançar. Fazer balanço. Como quando éramos crianças e fechávamos os olhos no baloiço do parque. Havia um instante suspenso entre o ir para trás e o impulso para a frente. Um momento de vazio fértil. O vento na cara, o coração leve, o corpo entregue ao movimento sem urgência de chegar a lado nenhum. Hoje, parece que perdemos esse intervalo. Vivemos sempre a ir, raramente a estar. Instalou-se em nós um temporizador emocional invisível. Um alarme silencioso que nos obriga a viver tudo em modo acelerado, como se a vida fosse uma lista de tarefas que tem de ser riscada antes do fim do ano. Mesmo quando estamos presentes fisicamente, a mente já corre para o que vem a seguir. O agora tornou-se um lugar de passagem. E, assim, tudo passa depressa demais. As 24 horas do dia parecem ter ido à máquina de secar: encolheram, mirraram, deixaram de chegar para o essencial. As notícias não ajudam. São duras, pesadas, difíceis de digerir. Ouvimo-las, muitas vezes, pela rádio, como quem tenta criar uma distância segura entre o que dói e o momento de fechar os olhos à noite. Porque as imagens entram pelas casas adentro, colam-se às paredes, instalam-se no corpo. E o mundo, esse, está visivelmente cansado. Frágil. Exigente. Por vezes assustador. Talvez por isso a única mudança verdadeiramente ao nosso alcance seja interna. Não no sentido ingênuo de ignorar a realidade, mas na escolha consciente de como estamos nela. Parece-me, cada vez mais, que se o mundo precisa de melhorar, começa inevitavelmente por nós. Connosco. Na forma como olhamos, reagimos, exigimos, julgamos e cuidamos. Este tempo de fim de ano pode ser mais do que um fecho apressado. Pode ser um convite à consciência. À revisão honesta do que nos tem roubado presença e do que nos devolve vida. Um convite simples e revolucionário: parar alguns minutos por dia. Sentar. Respirar. Fechar os olhos. E balançar. Sem pressa. Sem medo. Sem a urgência de querer o que ainda não temos. Talvez o verdadeiro balanço não seja contabilizar conquistas ou falhas, mas adubar o coração. Valorizar o que existe. Reconhecer o que sustenta. Abrandar o passo para que a cabeça possa agradecer e o corpo, finalmente, descansar. Porque no meio de um tempo que nos rouba tempo, escolher estar presente é um ato profundo de coragem e de esperança. E talvez seja assim que acabamos o ano: não a correr para o futuro, mas a balançar com mais consciência dentro do presente. Boas saídas e melhores entradas com fé sabendo que também nós podemos ter um papel ativo na escolha do que aí vem ✨
1 Comment
Sonia Rochette
12/30/2025 02:54:07 am
Que 2026 comece com serenidade e siga cheio de propósito, esperança e muita saúde que é o mais importante.
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